Bom, mas o meu relato de hoje não se trata da sossegada ida, mas sim da conturbada volta. Inspirada pela literatura da viagem e pela discreta memória jornalística, resolvi fazer algumas notas a respeito da condição das rotas que levam os mineiros de volta pra casa através das rodovias federais e estaduais que cortam o território brasileiro sentido Bahia – Minas. Outro aspecto que incentivou tal empreitada foi o fato de Porto Seguro, via terrestre, já ter sido roteiro de outras viagens familiares, o que marca lembranças de alguns detalhes belos e interessantes, diante também de tristes contrastes.
Então vamos ao que interessa: a viagem. Como o horário de verão não vigora nas regiões Norte e Nordeste da Brasil, ganhamos uma hora na saída de Porto Seguro. 10 horas na Bahia: 9 horas em BH. A primeira parte do caminho de volta começa na BR 367, a qual leva o motorista até a cidade de Eunápolis.
BR 101: plantação de eucaliptos às margens da estrada é paisagem constante no trajeto
A pavimentação da via está em boas condições tanto para quem vai sentido norte ou em direção ao sul do país. No entanto, o que mais chama atenção é a grande imprudência dos motoristas. Inúmeras ultrapassagens em locais proibidos: faixas contínuas, desvio pela direita e, principalmente, ausência de sinalização, por meio de setas ou pisca-alerta. Aliado à alta velocidade, a falta de consciência dos motoristas representa uma combinação perigosa.
E outro tipo de perigo triste é recorrente na BR 101, conhecida também como “translitorânea”, pois interliga o litoral brasileiro de norte a sul. No trecho entre a cidade de Teixeira de Freitas e Itamaraju, no interior do estado baiano, existem pequenas moradias feitas de “pau-a-pique” – vou conferir se, com as novas regras da ortografia, o hífen dessa palavra cai ou não! – próximas à beira da rodovia que abrigam famílias cujas crianças ficam perto da passagem dos carros, embaixo de uma espécie de cabana feita com folhas de palmeiras, pedindo ajuda para quem transita nos veículos. Algumas dessas casas sustentam placas com dizeres referentes à necessidade de alimentos, emprego e dinheiro. E isso já foi pauta de uma ótima reportagem veiculada no Jornal Nacional. Contudo, desde 2007, última ida a Porto Seguro antes da deste ano, pude observar que a quantidade de carentes diminuiu bastante. Contei duas crianças desta vez! Claro que não digo isso com alegria, ainda há muito a ser feito pelos governantes e por nós mesmos, mas diante da impressão anterior vejo progressos. Na outra viagem aquele pedaço que parecia esquecido de todo o mundo e a atmosfera era de muitas famílias necessitadas.
Bom, continuando o trajeto, felizmente a situação descrita não foi novamente vivenciada. Então voltemos à imprudência dos motoristas. Depois da divisa de estados, seguimos pela BR 418 rumo ao município de Nanuque, região Norte de Minas Gerais. A previsão de chagada à Governador Valadares, local escolhido para a pernoite, era por volta de 8 horas da noite. No entanto, já na BR 116, uma surpresa desagradável: congestionamento de mais de 7 km, causado por um entre um jipe e um ônibus de viagem, exemplifica a dimensão do imprevisto.
Restou aos motoristas descerem dos veículos e especular a causa do congestionamento
O sol não se juntou aos motoristas para esperar a liberação do trânsito, a chegada em Governador Valadares foi adiada para as 10 horas da noite.
Mas a espera na estrada foi compensada por um ótimo hotel e restaurante na cidade banhada pelas águas do Rio Doce. E olha que não ganhei nada pela propaganda! O lugar é bom mesmo!
No dia seguinte, 3 de janeiro de 2010, continuamos a volta pra casa por volta das 11 horas da manhã. Não era a melhor hora de sair e evitar futuros congestionamentos – resultado de outras chegadas do feriado prolongado – estávamos cientes disso. A rota a seguir após Valadares é a BR 381, perigosa e conhecida pelo grande número de curvas. Até Ipatinga, além da paisagem verde e montanhosa capaz de descansar os olhos, vale registrar também, mais uma vez, a imprudência de alguns apressadinhos.

Chegada a Belo Horizonte: prevista para 16 horas e efetivada às 19 horas. Claro que não se assemelha ao gasto dos paulistanos que enfrentaram mais de 10 horas para fazer uma viagem que demora pouco mais que 1 hora da capital até o litoral, mas já se configura como um sinal dos tempos.
*Fontes:
1) Mapa rodoviário de Minas Gerais
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